Um dia diferente Hoje é Páscoa, a festa maior do Cristianismo onde celebramos a ressurreição, nova vida, vida em abundância. Como foi o meu dia? Gastei uma boa parte do feriado envolvida na missão de ajudar a Tábata a ajudar a Dona Nati a morrer!
Na verdade, eu não amo a Dona Nati e não tenho mérito nenhum nesta missão. Entrei nesta por meio do constrangimento. Tábata é uma jornalista recém-formada e minha colega de trabalho na Rede Mãos Dadas. Dona Nati é uma andarilha, sem família e muito pouco vínculo social, uma "mulher de rua", que a Tábata resolveu adotar. O amor de Tábata por Dona Nati é constrangedor. É desmedido, desinteressado, e completamente imerecido, assim como o amor de Deus. E por isto, este amor nos constrange a ajudá-la a amar.
Dona Nati é uma mulher dura, difícil, exigente, intransigente e totalmente impossível de agradar. Quando Tábata e outras pessoas da Igreja Presbiteriana de Viçosa se aproximaram dela, logo descobriram sua incrível capacidade de ser mal educada, mal agradecida e turrona. Ajudá-la sempre foi um desafio. Não tinha documentos pessoais mas não queria contar onde nascera, se tinha parentes, qual era seu nome completo, etc. Estava doente, mas não aceitava tratamento. Precisava de abrigo, mas queria a liberdade da rua...
Escolta: Há uns 6 meses apareceu um câncer na garganta. Hoje ela está internada no Hospital do Câncer em Muriaé, a mais ou menos 2 horas de viagem daqui de Viçosa. Os médicos disseram que a morte é uma questão de dias, não de semanas. No domingo passado, quando Dona Nati foi internada, o hospital, como de outras vezes, exigiu que alguém ficasse como acompanhante. O amor desmedido da Tábata levou-a a fazer uma loucura: ela ficou. Só ontem conseguiu voltar para Viçosa quando começamos a pagar duas pessoas para se revesarem no posto de acompanhante. Uma semana diante da morte, uma semana tentando escoltar Dona Nati à presença de Deus!
Mudanças: Nos meses em que lutou contra o câncer, Tábata e suas colegas de república insistiram em cuidar de Dona Nati. Aos poucos conseguiram abrir brechas na couraça da velha senhora. Nestes dias, ela não quer ficar sozinha, pede para que Tábata reze por ela, leia um Salmo, e a acalme. Tem delírios: uma mulher rejeita a sua filhinha e ela exclama “Ela não quer a menina!”. Um homem a ameaça, ela chora de medo e não consegue correr do perigo. Tábata pergunta quem é a menininha, Dona Nati não responde.
Nos momentos de lucidez Tábata quer saber se ela já conversou com Deus, se já acertou sua vida com Ele. Ela diz que sim. “Você já pediu perdão pelos seus pecados?” “Sim,” diz ela. Mas Dona Nati não tem tempo para descobrir que a fé pode transformar seu terror da morte em uma misteriosa expectativa do encontro com um Pai amoroso. Gasta a maior parte do tempo lutando para respirar, já não come, não bebe, e não dorme. Ela não quer dormir com medo de não acordar, e por isto sofre, agoniza. E Tábata sofre junto com ela! Que amor constrangedor é esse!
Amor Incondicional: E no entanto eu sei que cada um de nós é como a Dona Nati diante de Deus, por isto eu torço por ela. Sei também que a Tábata, imperfeita e vulnerável como qualquer um de nós, foi chamada para uma tarefa instransferível e inadiável: garantir que Dona Nati experimente o amor incondicional e totalmente imerecido vindo diretamente da parte do Pai! Missão grandiosa essa.
É por isto que eu me sinto privilegiada em poder, no dia em que celebramos a vida, ajudar a Tábata a ajudar a Dona Nati a morrer! Páscoa abençoada!
Dona Nati, entregue-se a Ele, Jesus a espera de braços abertos!
PS: Dona Nati faleceu no dia 6 de abril, às 10:45 da manhã.

eu quero saber se Dina Nati entregou sua vida a Jesus antes de morer.
Posted by: Francielly | 06/25/2010 at 17:10